Estratégias criadas pelos próprios pacientes

Alex comentou:  

“Em relação às estratégias que utilizei e estou utilizando para melhorar meu relacionamento na faculdade e fora dela: no segundo ano, comecei procurando ficar calado todo momento, já que todos na sala já haviam me chamado de “chato” ao menos uma vez e zoavam o fato de eu fazer muitas perguntas durante a aula, não obtive muito sucesso com essa estratégia, mas ela me ajudou a conseguir falar menos enquanto praticava a estratégia seguinte, onde eu devia “Parar, pensar e aí sim falar”, ou PPP (Parar, Pensar e Planejar).

Estou bem melhor hoje com a estratégia PPP treinada, mas ainda resta o reflexo da primeira imagem e, por isso, acabo por ser tratado um pouco diferente por uns e outros. Já pude até me soltar um pouco, sem sair do contexto é claro. Piadas têm hora e lugar certo para serem feitas e acho que isso já está mais claro para mim.

Este ano já recebi criticas positivas e negativas, as positivas em maior número, e, agradeço as negativas por me fazer saber em que tenho que melhorar”.

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Segundo o paciente R.I.

– O headphone não bastava para manter minha concentração. Eu precisava usar mais alternativas para mantê-la, e consegui ao ler um texto em voz alta, mesmo que não seja uma dicção em tom compreensível por outros; é só para focar melhor um determinado assunto.

Outra manobra eficaz é fazer pausas programadas de tempos em tempos. Eu, por ser metódico, faço estudo de 50 minutos e pausas de 10, para completar 1 hora exata.

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Fernanda disse:

Aprendi a me organizar e a me planejar (coisas que antes para mim eram naturais) usando uma estratégia aprendida no CPN que é usar uma agenda semanal. Sem a minha agenda, tudo fica muito difícil. Com o uso dela, consigo ter uma noção de atividades que devo fazer na semana e no mês e assim me organizar. Isso me traz segurança

Outra técnica que uso com a agenda é escrever como foi meu dia, como um diário mesmo. Dependendo de como quero testar a minha memória, escrevo no mesmo dia ou uns dois ou três dias depois. Isso contribuiu muito pra melhora da minha memória, porém ela ainda está muito aquém se comparo com a memória de “antes do traumatismo”.

Para melhorar a leitura, me esforço pra ler legenda, o que é dificil, pois perco muita informação.

Como eu me canso muito facilmente, quando percebo que não consigo render mais nada durante o dia ou que estou mais nervosa ou mal-humorada pelo grande cansaço, deito e durmo um pouco pra depois terminar aquele dia.

Acho que um ponto positivo pra minha reabilitação foi e ainda é ter tido sempre muita noção das minhas limitações e ter decidido encontrar maneiras de enfrentá-las e não só reclamar de todas elas. A minha terapia psicológica e os medicamentos também foram fundamentais, além, é claro, do apoio de toda minha família e amigos.

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Nelson comentou:

– O grupo promove discussão das dificuldades apresentadas e estratégias aplicadas para melhorar as deficiências. Outras estratégias são apresentadas pela equipe de neuropiscólogos do CPN/REAB, assim trocamos experiências e recebemos sugestões no intuito de melhorar nossa condição de vida no dia a dia.

Com as estratégias utilizadas, melhorei meus aprendizados usando palavras chaves, associações e a técnica de repetição utilizada anteriormente. Essas técnicas me auxiliam em exatas e também em atividades que exigem atenção sustentada. Desta forma, em provas que a maior duração prejudicava meu desempenho pela desconcentração, o problema foi solucionado após acordo com alguns professores que me possibilitaram maior tempo de prova. Assim, houve melhora da autoestima e confiança, o que me permitiu conciliar algumas atividades extras.

por meucerebromudou

percepção de que algo havia mudado

A ajuda da família e de profissionais é fundamental para a pessoa que sofreu uma lesão no cérebro conseguir retomar/iniciar algumas atividades que permitam a se inserir novamente na sociedade. Sem este trabalho em conjunto tudo fica difícil e a pessoa que sofreu a lesão pode ter muitos problemas tanto no âmbito escolar/profissional quanto no emocional. Segue abaixo algumas opiniões:

Fernanda:

Em casa, mesmo com muita medicação, sentia dores terríveis por todo o corpo, não conseguia dormir nem comer bem, só chorava… Demorei a perceber dificuldades de linguagem, memória, atenção, leitura… Como meus pais tinham perdido a filha e o genro e eu ainda com dores insuportáveis, usando fraldas, muito dependente pra tudo, as minhas dificuldades cognitivas não foram percebidas por mim nem por minha família. A dor da perda era muito grande…

Depois de alguns meses, algumas amigas fonoaudiólogas me visitaram e me alertaram com relação à atenção e memória, pois eu repetia as conversas. Depois de negar isso um tempo, decidi ir pra S.P. fazer uma avaliação fonoaudiológica com uma ex professora minha da EPM e foi quando fiquei muito assustada ao perceber o quanto estava difícil e às vezes impossível fazer coisas que antes pra mim eram bem simples.

Além da intensa fisioterapia pulmonar e exercícios para voltar a andar e movimentar o braço esquerdo que eu já fazia desde a saída do hospital, iniciei em outubro de 2007 reabilitação fonoaudiológica e neuropsicológica, além de acompanhamento psicológico, entre outros. Desde o início usei anti-depressivos  que ajudaram a regularizar  melhor meu sono, humor, apetite, etc. Com muita ajuda da minha família (essencial para toda minha recuperação), amigos e profissionais, tive grandes  e notáveis melhoras, sempre muito comemoradas por todos ao meu redor.  Porém, ainda permaneço com dificuldade principalmente de atenção, concentração e memória. Não tenho raciocínio rápido, leio com um pouco de lentidão, além de trocar algumas letras e números, mesmo lendo várias vezes. Meu raciocínio parece entrecortado…Fiquei também com grande labilidade de humor e alteração de sono. Me sinto extremamente cansada com qualquer atividade que exija mais atenção e concentração.

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R.I.

– Meu humor permanecia diferente. Eu, que já era irritado e impulsivo, estava mais ainda após o acidente, e eu me mostrava desatento para tudo. Pensava que fosse porque eu não via importância no que confiavam a mim; ao me deparar frente a um problema real, claro que eu conseguiria me sair bem (conseguiria o mesmo desempenho de antes).

Os problemas ganharam peso com o o retorno à vida acadêmica, e eu não consegui o mesmo desempenho de antes; vi o quanto de energia eu precisava gastar mais que meus colegas. O fato se confirmou com minha avaliação neuropsicológica. Minha atenção carecia uma maior atenção.

É o que consigo nas terapias com a neuropsicóloga.

– Aprendi a me organizar e a me planejar (coisas que antes para mim eram naturais) usando uma estratégia aprendida no CPN que é usar uma agenda semanal. Sem a minha agenda, tudo fica muito difícil. Com o uso dela, consigo ter uma noção de atividades que devo fazer na semana e no mês e assim me organizar. Isso me traz segurança.

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Sonia:

Devido a todos esses acontecimentos, senti que tudo havia desmoronado, não tinha mais a minha vida como era.  Eu estava sendo conduzida.  Perdi tudo no mesmo dia, a minha saúde e o meu serviço que eu gostava tanto, até o meu namorado que não soube compreender o problema, e que me conheceu cheia de vida, de repente me viu doente, careca e usando fraldas. Que situação! Comecei a ficar agressiva, eu que antes era calma e tranqüila, não discutia me vi totalmente descontrolada chorando sempre.

Tremendamente discursiva e emotiva. Enfim, eu era outra pessoa, quem era eu? O que aconteceu? de dinâmica fiquei lenta,  de calma fiquei agressiva,de 220 passei a ser menos que 110 eu que nunca havia passado um dia num hospital agora aos 46 anos eu  era uma deficiente física.

Eu tinha que me entender, para as pessoas me entendesse. Era muito difícil a cabeça ser 220 e o corpo menos que 110, chorava muito.

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Nelson:

Como aprendi lidar com as dificuldades

Foi ai que resolvi conversar com o meu neuro e pedir explicações a ele, como eu deveria proceder? Ele me encaminhou para uma avaliação neuropsicológica para ver a extensão do meu trauma cognitivo. Assim foi feito e foi constatado que tudo isso era devido ao meu cérebro ter sido afetado na parte frontal. E as minhas funções executivas estavam extremamente alteradas conforme avaliação neuropsicológica.

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Renata:

acho relevante destacar , que como não tive seqüelas aparentes ( não mancava,falava bem,fazia todos os movimentos,etc)  não percebi que precisava de ajuda profissional. Tinha a necessidade de contar para todos o que havia acontecido comigo e como estava triste , uma vez que não aparentava nada.

Senti muita raiva, e fazendo terapia com o grupo consegui  aprender a conviver com as minhas limitações.Levou um tempo para eu aceitar que precisava de uma agenda para lembrar dos meus compromissos, que precisava redobrar minha atenção para lembrar de algo importante.Com muita luta, determinação e ajuda dos profissionais do CPN  e do grupo  estou bem.

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por meucerebromudou